Nos horizontes do tempo, cicatrizes desenham as paisagens do corpo, da memória e da terra. Do cerrado à Amazônia, a mineração põe em risco a vida, humana e não humana, extrai e faz pó o belo dos horizontes.
Saiba maisEra sexta-feira, 25 de janeiro de 2019; sem nenhuma sirene ou aviso, a terra treme. De proporções colossais, a barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho se rompe impetuosamente num tsunami tóxico que em poucos minutos soterrou os sonhos, os amores, as vidas de 272 pessoas e 133 hectares de vegetação nativa de Mata Atlântica. Vazio onde um dia foi montanha.
A transformação da paisagem é fato refletido no pensamento de Davi Kopenawa, xamã Yanomami, em que na obra A Queda do Céu associa o cair do céu à retirada do chão:
“Eles viram ao branco tirar o chão da floresta, com seus enormes tratores para abrir esse caminho (…) Escavação e escavação, brancos ameaçam puxar para cima as raízes do céu que são mantidas no lugar pelo metal de Omama”
A mineração, que sustenta séculos de um padrão extrativista colonizador eurocêntrico e patriarcal, desenhou com sangue os mapas do mundo e assim segue. No norte, o garimpo ilegal e a legalidade injusta das grandes multinacionais alteram o curso dos rios e da vida. Há de se lembrar Mariana, 2015, a maior tragédia ambiental da história do país, e quatro anos depois Brumadinho, a maior tragédia humana do Brasil. Em comum as marcas da exploração e da impunidade.
No seu e no meu corpo a mineração nos circunda. O celular, o trem, o carro, a bicicleta, o relógio. Buracos de quilômetros em uma paisagem adoecida pela lógica da mercantilização da Terra e da vida.
Desde o período colonial o Brasil teve muitas Vilas Ricas, cidades marcadas pelo escoamento de riqueza e pelo impacto causado pela caça ao minério. Mineiro é gentílico e identidade que se forma em deformidade extrativista. E na capital não é diferente. Palco das políticas e decisões judiciais dos maiores crimes socioambientais do país, Belo Horizonte é terra explorada, abraçada numa ironia geológica, por cartões postais de montanhas que sangram. A Serra do Curral materializa no epicentro do poder as paisagens de todo o estado.
As memórias afetivas de Drummond denunciam a mudança da paisagem. Como em estado de luto, no poema A montanha pulverizada, ele rememora o Pico do Cauê: um marco da topografia mineira que compunha a paisagem que o poeta avistava de sua janela e que desapareceu. Foi levado por vagões para um porto. O Pico do Cauê era mais uma pedra no meio do caminho.
Paisagens mineradas são paisagens entrecortadas de entranhas expostas, camadas de memória do que um dia foi vivo. E vida é um imperativo de transformação: renasce, desobedece, se reinventa. Quando soterradas, viramos sementes. Aqui Paisagens Mineradas é convite a um imaginário de solo fértil. Nessa lama vermelho-sangue semeamos a vida. Em um misto de manifesto, memória e oração, esta exposição reúne 12 mulheres artistas que, feito mãe-terra, se organizam em rede para germinar outras paisagens possíveis.
Este projeto é dedicado a todas as vítimas humanas e não humanas de Brumadinho e Mariana e se estende a todos que foram e são impactados pela mineração ao redor do mundo.
Isadora Canela e Marina Kilikian
Realização: Instituto Camila e Luiz Taliberti






